Hoje eu não vou me preocupaar com rimas, com metáforas, com concordância...
Hoje, não sei se serão versos ou parágrafos... Compreensível ou imcompreensível... Não importa, hoje vou simplesmente dizer a verdade.
No pouco que vivi, posso dizer que aprendi muitas coisas. Uma das mais importantes é que devemos aproveitar tudo e todos enquanto há tempo... Porque, depois, além de fotografias, só vão restar lembranças... Ou, apenas lembranças. Sem fotografias. Sem nada materializado para lembrar-nos de que realmente foi real.
Nada e tudo. É o que temos. É o que podemos ter...
Um dia eu acordei em um quarto, de uma casinha velha, olhei pro teto, de madeira... Eu gostava e não gostava ao mesmo tempo... Quem disse que, pra sentir saudade, precisa ser de algo que gostamos?
Enfim, ao acordar, eu sabia que era manhã, porque eu via raios de sol entrando pelos buraquinhos no telhado e na janela.
Então, eu me levantava, e ía pra cozinha. Acordava junto com ela, com a vovó.
Ela começava a enrolar o pão de queijo, sentava numa cadeira, ao lado do fogão, e ficava balançando a perna e a bengala, esperando o pão crescer e assar.
Eu também. Sempre fui anciosa.
Então, o vovô também levantava. Eu escutava o barulho que as botas de borracha faziam quando ele andava. Era o único barulho na casa, com exceção do barulho do gás do fogão.
O vovô parava num espelhinho ao lado da porta e penteava seus ralos cabelos grisalhos, e então, pegava seu balde de leite, e olhava para mim. Ele sabia que eu iria seguí-lo. Foi o que eu fiz enquanto ele esteve vivo. Ás vezes aindo tento fazê-lo.
Então, eu pegava um copo com nescau, e ía pro curral, usando o conjuntinho velho de moletom e tênis mais velho ainda. Mais tarde, acabei ganhando botas cor-de-rosa. Eu estaria rindo disso agora, mas não consegui sorrir. Tentei mesmo.
Eu gostava do arzinho frio da manhã. Gostava de pisar na grama molhada de orvalho. Gostava do cheiro, embora não me lembre dele muito bem agora.
Lá no curral, o vô comaçava a moer o capim, era interessante ver, eu gostava. Mas sou suspeita de dizer, eu gostava de ver tudo o que ele fazia. O cheiro do capim moído também era bom. Muito bom na verdade. Desse cheiro eu me lembro um pouco. Depois, o vô colocava os montes nos couchos. Um monte separado do outro, e colocava sal em cima. O sal que ficava numa panelinha velha e amassada. Eu e minhas primas já tínhamos comido daquele sal várias vezes, realmente, a gente não tinha medo de qualquer doença que aquilo pudesse causar. Na verdade, a gente nunca tinha pensado na possibilidade de qualquer doença.
Depois do sal colocado, ía o vovô, com seu chapéu de palha, e misturava, me lembro exatamente como, e me lembro do barulho que fazia.
Então, ele me pedia pra ficar do lado de dentro de uma porterinha, e ía buscar as vacas. Chamá-las, na verdade.
A que eu gostava era a Estrela, e, se não me engano, havia sido nela que o vô havia me ensinado a tirar leite, e eu aprendi. Depois de alguma prática.
O leite espumava no balde, enquanto eu assistia o vovô. Então, ela pegava meu copo, com nescau, e tirava o leite pra eu beber. Puxa! Já contei esse episódio muitas vezes em redações da escola. E meu irmão um dia contou que, minha antiga professora havia lido uma redação minha na classe dele. A redação era sobre o leite que o vô tirava. Quem diria! Fiquei feliz com o fato.
Enfim, nenhuma palavra que eu havia escrito na redação descrevia o sabor do leite. Mas eu sabia que não era o sabor que fazia a diferença.
Era um momento único, e não importa o que eu escreve aqui, ninguém jamais vai entender o que sentia. Na verdade, nem eu compreendo agora. Mas compreensão não importa, não é mesmo?
Depois de beber o leite, às vezes com minhas primas, às vezes sozinha, terminava o episódio da manhã, o episódio de mim junto com o vô. Só nós dois. Às vezes andavamos de carroça de manhã. Enfim, não importava o quê. O que importava era que eu podia estar com ele.
Depois que eu retornava a casa, já estava tudo mais agitado, meus pais já tinham se levantado. O dia começava antes do sol.
Eu então, ía brincar com minhas primas. As brincadeiras que eu amava. Já escrevi sobre elas também. Mas, as palavras foram muito mais vazias que a realidade, é claro! Sempre foi assim. Está sendo assim agora, também.
Eu e minhas primas nos trancávamos no quarto dos avós e, bem, mexiamos no que não era nosso. Consegui sorrir com isso agora.
Mas, não sei se minha avó sorriria também se tivesse ficado sabendo disso... Mas acho que ela entenderia.
As tardes sempre eram calmas. Silenciosas. Eu e minhas primas brincávamos no pasto, correndo pelo vento quente. Ou, então, íamos para os "corguinhos". Já desenhei isso. Tentei, com insucesso, transmitir o quanto era bom.
Depois, à tarde, o vovô ía tirar leite de novo, e nós íamos om ele... Assim, aos poucos, ía escurecendo, o calor ía cedendo lugar para brisas frias, até que era noite. Ouvia-se, então, os grilos, via-se os vagalumes,às vezes, meu tio contava histórias... Até que eu começava a bocejar. Brincava tanto o dia todo, que logo ficava exausta. Mas, acho que eu não gostava muito quando tinha que parar a diversão.
Então, íamos todos para a sala. A TV ligada. O colchão no chão. Geralmente eu dormia com uma de minhas primas... Demorava um pouco pra cair no sono; não gostava dos bichinhos que ficavam ao redor da luz, nem dos ciscos que caíam da madeira do teto-rsrs-.
Mas, cansada demais, eu dormia... Acho que eu sonhava... Mas, amava acordar, mesmo que no meio da noite, e ver aonde eu estava.
E, finalmente, amanhecia, eu acordava minha prima, sorria pra ela, e, quando a minha avó levantava, arrastando os chinelos, gostávamos de fingir que estávamos dormindo, e, depois que ela chegava na cosinha, a gente ficava vendo o reflexo dela pela televisão, e rindo ao mesmo tempo. Até que levantávamos, pra começar um outro melhor dia de nossas vidas.
Hoje, estou aqui. Choro com essas coisas. Choro porque eu sei que o passado não pode voltar.
Choro porque duas pessoas que realmente amei, e ainda amo, não estão mais nesse mundo...
Choro porque.... Não sei! As pessoas choram ao recordar bons tempos, e, aí, começa a sufocar o peito, e a tristeza acaba chegando...
Sinto saudades... Não sei como é o céu, mas, com certeza deve ser algo bem parecido com o lugar que contei aqui...
Não consigo imaginar como pode ser melhor...
Na vida, não se pode reclamar, a gente busca a felicidade, sem saber que já é feliz.
A vida inteira, estamos "em busca da felicidade", porque ouvimos dizer que esse é o nosso grande objetivo...
Mas a felicidade está em todos os dias... Em tudo o que fazemos... Está nos pequenos momentos, nos pequenos gestos de grandes pessoas...
Está num simples sorriso, num olhar, num aperto de mão...
Está no ar... E insistimos em continuar procurando, às vezes, tão desesperadamente, que nos esquecemos do que importa... Muitas vezes, gastamos a vida, querendo viver.
Não existe esse conceito de infelicidade. Não existe! Quando você está triste com algo, você consegue sorrir da piada de algum amigo, e aí, você já está sendo feliz.
Só que está ocupado demais procurando solução para o seu problema, que se esquece que ele já se resolveu.
As coisas ruins se acabam por si só.
Não precisamos fazer muita coisa. É só deixar a vida acontecer. É só perceber que você realmente é feliz.
Os meus dias de infância naquele sítio acabaram... Mas, é assim mesmo. Coisas acabam, outras começam... Muitas dessas coisas estão começando agora... Coisas boas!
Estou vivendo... Não vou me preocupar com o desnecessário. Nem com o necessário. Porque eu não tenho tempo pra preocupações. A minha vida está acontecendo agora, e eu não quero acordar daqui 50 anos e pensar "que tudo foi um grande desperdício". Eu quero ser a avó da história um dia, e poder dar aos meus netos aquele gostinho que senti um dia...
Quero que eles conheçam o verdadeiro sentido do amor... E que eles entendam, assim como eu, que: "o sentido da vida está em não procurar o sentido dela",você acaba descobrindo por si só, e, no fim das contas, você saberá que nada foi em vão, e que Deus lhe deu um presente eterno: a felicidade.